Sociedade


Falta quase tudo: Centros de saúde do Cazenga estão a medicar os pacientes apenas com Dolaren

2020-02-13 10:42:00

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Os centros de saúde do município do Cazenga estão sem reagentes para a realização de análises clínicas dos pacientes que ali acorrem. Segundo apurou o Na Mira do Crime, nestas condições estão os centros 11 de Novembro, Ana Paula, Siga e da Paz cujos pacientes são obrigados a fazerem apenas a análise de gota espessa, para aferirem a doença que os apoquenta.

Outras análises mais profundas, como é o caso da urina, fezes e widal, são impossíveis de fazer porque não há reagentes.

“Os pacientes são obrigados a receberem receitas com resultados de presunção. Ou seja, o médico ou enfermeiro presume que tem esta ou aquela enfermidade em função dos sintomas que ele apresenta”, queixaram-se alguns pacientes à nossa reportagem sublinhando que há patologias com sintomas idênticos e nesses casos, os pacientes são medicados de forma errada, o que pode provocar uma acção contrária a doença que apresentam.

Nalguns casos, sustentaram, os doentes são orientados a fazer análises em centros privados.
Outros, que não têm recurso sujeitam-se a receber apenas as receitas. “Não sei como é que em pleno século XXI ainda temos centros e hospitais nos municípios sem reagentes.

Queremos resolver o problema da saúde, mas infelizmente não nos esforçamos a dar as condições necessárias para que tal aconteça”, explicou Maria Madalena, uma encarregada que tinha o filho adoentado e que teve de recorrer a um posto privado para fazer a análise médica.

Para ela, não se concebe um laboratório trabalhar apenas um turno quando existe um banco de urgência que atende ininterruptamente, na medida em que os casos que saem dos bancos de urgência, em função da gravidade e da patologia, devem ser encaminhados ao laboratório para se ter a plena certeza do que o paciente tem e se consiga medicar sem erros.

Sem medicamentos nem ambulâncias

Se nalguns municípios de Luanda, alguns centros de saúde foram brindados com ambulâncias para o socorro de doentes de uma unidade hospitalar para outra, o mesmo não se pode dizer do Cazenga. Nos centros que atendem as comunidades, mais precisamente, o centro da Siga, ali nas imediações da fábrica de cerveja da Nocal e do 11 de Novembro na Mabor, a realidade é diferente.

As motorizadas e táxis particulares fazem o socorro dos pacientes que acorrem a estas unidades sanitárias. Por este facto, os pacientes solicitam ao governo provincial de Luanda, na pessoa do seu titular, Sérgio Luther Rescova, por sinal, alguém bastante sensível a questões de saúde, que coloque à disposição para os munícipes que ali se encontram ambulâncias.

A medicação, como a disposição de medicamentos de vários tipos, também é algo ausente naquelas farmácias.

No centro 11 de Novembro, por exemplo, segundo apurou este portal de notícias, o Dolarem é o único tipo de comprimido disponibilizado ao público, sendo que tudo, desde luvas aos gases para tratar simples ferimentos, são adquiridos nas farmácias privadas existentes nas imediações do centro.

“Algo não bate certo. Aqui só dão cinco comprimidos de dolarem para cada paciente. Não tem mais outro tido de medicamentos e tudo somos obrigados a comprar na rua”, explicou Ana Jeremias, que viu ser-lhe devolvida a receita com Coarten e amoxacicilina para medicar a filha e ser aconselhada a buscar pelos fármacos na farmácia da rua.

Para esta mãe, os medicamentos são retirados da farmácia pelos próprios enfermeiros para revenda, só assim, se justifica a inexistência de medicamentos nos hospitais.

“É necessário mesmo fiscalização caso contrário nunca vamos parar de comprar medicamentos fora, muitos deles, fora do prazo e sem qualidade alguma”, apelou.

Responsável solicita apoio

Contactado à respeito das denúncias, António Jerónimo, administrador do Centro de Saúde 11 de Novembro, reconhece as dificuldades apontadas pelos pacientes, mas garante que tudo estão a fazer para a satisfação dos pacientes que acorrem aquela unidade sanitária. Em relação as análises clínicas, o responsável sublinhou têm estado a fazer alguns exames de urgências, “como a gota espessa, para saber se o paciente tem paludismo uma das enfermidades mais frequentes da nossa população, a glicémia, para saber o nível de açucar no sangue e também a hemoglobina”.
Por outro lado, os exames que devem ser seguidos, também chamados de secundários, estes os pacientes são orientados a voltar no dia seguinte.

“Nesses casos, os exames desse tipo é o Widal, VS, a urina, VDRL que muitas vezes os pacientes são orientados a virem no dia seguinte ou a posterior em função da demanda do laboratório”, explicou, para depois acrescentar que quando os pacientes são orientados a regressarem no dia seguinte pensam logo que não há reagente ou que este tipo de análise não estão a ser feitos.
Entretanto, no que a farmácia diz respeito, apresentou alguns medicamentos disponíveis, como os anti-paludicos e analgésicos disponíveis para os pacientes que ali acorrem e também para o banco de urgência.

“As luvas e gases são materiais gastáveis e descartáveis que facilmente podem acabar o stoque, mas esta situação é geral a nível dos nossos centros, não só do Cazenga, mas também de Luanda”, sustentou.

Quanto a questão da ambulância, António Jerónimo, garante que a situação ultrapassa as competências da repartição municipal, mas ainda assim, é do domínio daquela instância.

“Muitas vezes temos recorrido a Polícia ou solicitado o apoio do hospital dos Cajueiros para a evacuação de doentes. Noutros casos, quando não há disponibilidades destes a solução é recorrer mesmo aos táxis particulares, o que não é muito bom”, referiu, para depois solicitar a intervenção dos órgãos afins no sentido de disponibilizarem uma ambulância para este centro que atende os munícipes de vários bairros do Cazenga.