Investigação


Os negócios de comandantes municipais feitos com agentes e patrulhas

2020-06-17 07:53:00

Imagem de destaque

Partilhar isto:

Quem está atento já viu, com certeza, um carro patrulha encostado junto a uma agência bancária, hotel, casino até mesmo próximo de um restaurante por mais de uma hora, quando os mesmos estabelecimentos até possuem seguranças privados ‘armados até aos dentes’.

Este pormenor não visa apenas proporcionar segurança aos clientes, principalmente de bancos comerciais. “Visa mostrar aos gerentes de bancos que o acordo está a ser cumprido, e que no final do mês o envelope deve chegar até à mesa do comandante municipal”, segredou um oficial da Polícia Nacional.

O Na Mira do Crime andou por alguns distritos da cidade capital, e ouviu alguns comandantes de esquadra, que têm o dever de colocar a viatura e agentes lá onde existe interesses do comandante municipal.

“É um caso lixado, estamos sujeitos a ficar em casa, ou sem posto de trabalho, caso não cumprirmos a ordem do chefe, mesmo se for uma ordem injusta, principalmente para nós que temos que gerir poucos homens onde há muita população, assaltos ou em zonas onde a delinquência está alta”, descobriu.

 “Os comandantes são todos amigos e iguais. Nem todos, mas na sua maioria", e, "é preciso dizer, devem obediência ao amigo do amigo que conseguiu-lhe colocar num determinado posto como comandante".

"Se você tirar os agentes da porta ou próximo ao banco, e de repente o comandante municipal passar por lá e não encontrar os efectivos, ou ainda se acontecer um assalto no mesmo banco, você é desobediente e perdes confiança”.

As benesses, de acordo com os entrevistados, vão de dinheiro a ofertas de viaturas. Pagamento para casas de aluguer de amantes e compra de bens valiosos como fios de ouro, mascotes e artigos que o comandante achar interessante.

"E o que mais intristece é que os efectivos que fazem este trabalho sujo dos chefes, nem recebem um tostão, vão em casa conforme sairam,mesmo sendo eles que arriscam as suas vidas".

“Onde há grandes mercados é também uma mina de ouro”, descobriu a nossa fonte, acrescentando que daí saem “mixas chorudas”.

 "E não pensa que os pesos pesados não estão atentos a isso. Comem os homens do Serviço de Investigação Criminal e o comandante municipal. Este último sabe que tem que dar alguma coisa ao chefe dele para garantir o lugar”, observou.

Territórios como Belas, Viana, Talatona e Luanda, principalmente onde existem várias agências bancárias e casinos eram vistos como minas de ouro.

“Mas não é só de bancos e casinos onde comandantes vão buscar o seu bocado”, atirou um dos entrevistados.

O município de Cacuaco, por exemplo, segredaram, na altura em que a exploração de inertes estava a bater, ia-se tirar um bom bocado nas empresas de exploração.

“Não sei como anda agora, mas, o Cazenga e a Maianga (Mártires), conseguiam fazer alguma coisa com os líderes das comunidades estrangeiras, principalmente aqueles que possuem grandes superfícies comerciais e controlam conterrâneos, alguns deles ilegais. Esses são obrigados a dar alguma coisa mensalmente”, denunciaram.

“Daí a ausência de polícias em zonas onde há muitos cidadãos oeste africanos, que são os que mais pagam. Vê só o negócio da troca de dólares no Mártires, achas que não acaba por que? é negócio do chefe...e do chefe do chefe..nem te atreves a se meter aí”, sorriu.

Os nossos entrevistados, disseram ainda que a realidade hoje é diferente da de outros anos.

“Hoje por hoje, mesmo em territórios onde há muitos biznos, nem sempre o comandante municipal é que manda, há comandantes de esquadra que tem mais peso que o municipal, filho ou sobrinho de um mais velho, este pode fazer o negócio com os empresários locais e não é confundido, mas quem está na polícia sem padrinho na cozinha, não pode tentar enfrentar o comandante”, explicou.