Opinião


O combate à corrupção na visão de João Lourenço

2020-07-01 09:58:00

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“Em matéria de combate à corrupção, fez-se, em dois anos, muito mais do que se fez em 43 de Independência”, disse O líder do MPLA, que discursava, em Luanda, na segunda reunião ordinária do Bureau Político do seu partido

Por: Osvaldo de Nascimento

“Embora pareça pouco, é justo reconhecer-se que, em matéria de combate à corrupção, fez-se, em dois anos, muito mais do que alguma vez se fez em 43 dos 45 anos da Independência Nacional”, sublinhou. No entanto, esta visão de JLO vai em sentido oposto daqueles que vejam esta luta dos “camaradas” como uma frente direccionada apenas para família do ex-presidente da República, José Eduardo dos Santos, e alguns dos seus seguidores, pois, sustentam, há pessoas de ‘peso’, bem identificadas, que aos olhos de todos delapidaram o erário e continuam livres e a ostentar o que roubaram durante anos.

No entanto, ainda no seu discurso, o também Presidente da República lembrou que o combate à impunidade e à corrupção, são acções que devem correr em paralelo, sem que primeiro se resolva uma depois outra. Enfatizou o papel do cidadão, que se tornou parte da solução, com denúncias de factos que, uma vez comprovados, podem levar à condenação dos actores.

Uma das preocupações dos cidadãos dos mais diversos sectores, são às pessoas com passado ‘sujo’ que JLO insiste em colocar na gestão da coisa pública. Há denúncias de pessoas próximas ao palácio presidencial, como é o caso de Edeltrudes Costa, que, numa edicção do Jornal português Expresso, apontava o actual Chefe de Gabinete do Presidente da República de, no tempo da velha senhora, ter recebido 17,6 milhões USD numa conta BAI de forma não justificada.

O jornal diz que em diversas formas tentou contactar Edeltrudes, mas este não respondeu. Este pormenor mostra a faceta dos filhos e enteados que se comenta em boca pequena nos corredores do palácio.

Outra preocupação, nalguns sectores do país, são os gestores que estão no cargo há mais de dez anos, ou menos, sem no entanto conseguirem satisfazer o desejo dos seus governados. Há largos anos que o MPLA deveria perceber que um país sério não se faz apenas com as cores vermelha, preta e amarela. Há outras cores e actores que podem, e devem dar o seu conhecimento para o desenvolvimento do país.

Na senda da corrupção enraizada no partido dos camaradas, estão corruptos crónicos, que conhecem os meandros do poder político e judiciário, no mesmo judiciário, fruto do péssimo hábito da antiga gestão do país o “etu um dyetu” está solidificado, por causa do ‘partidarismo’ e continuam “as palminhas nas costas” para deixar andar os grandes tubarões da desgraça de todos.   

Generais, empresários, antigos gestores bancários, ministros e toda uma camaradagem de marimbondos e salalés, passam incólumes a escândalos públicos.

Para ‘desentendermos’ este tipo de escolha de gestores do tempo de JLO, basta darmos um salto ao Cuanza Sul, para perceber que tipo de governação reina naquela circunscrição. Não tão longe de Luanda, no Bengo, gente nova já causa dissabores a caravana ‘mpelanista’.

No Cuanza Sul, por exemplo, o responsável da província arroga-se em dizer que é apenas um ‘activista do MPLA’ na pasta que ocupa.

Está escolha doentia pelo partido e o não comprometimento com o país, mostra a elevação ou baixeza dos dirigentes que temos.

Depois de mais uma vez hastear a bandeira contra corrupção, no discurso de ontem, Lourenço acusou Eduardo de nada ter feito contra esta prática durante o seu reinado. E verdade se diz, João Lourenço trava um bom combate nesta estrada. Tenta, embora de forma ‘atabalhoada’ mostrar algum serviço.

 O titular do poder Executivo entende que “ainda há quem, por ingenuidade ou má-fé, considere que um fenómeno enraizado ao longo dos anos na nossa sociedade, em pouco mais de dois anos já devia estar definitivamente sanado e com resultados mais visíveis”. Para alguns, se não houvesse selectividade neste combate, boa parte dos dirigentes de proa do MPLA estaria na cadeia.

“Alguns consideram bons resultados apenas o maior ou menor número de pessoas arroladas, detidas ou condenadas, ou ainda que o Estado já devia ter recuperado todos os activos, o que a todos os títulos não é realista”, afirmou. Realista ou não, verdade é que o Executivo tem uma mão cheia de marimbondos à deriva, e não explica quanto o Estado já recebeu daqueles que roubaram quase tudo ao povo.

O presidente do MPLA lembrou que uma vez que o dinheiro criou em alguns a ilusão e falsa sensação de impunidade, não fazendo voluntariamente a devolução dos activos que ao povo angolano pertencem, ao Estado e à Justiça não resta outra escolha senão a de alcançar o mesmo objectivo pelos meios legais ao seu alcance, incluindo a cooperação judiciária internacional. Esta afirmação, para alguns analistas, cai como luva para o caso Isabel dos Santos. No entanto, generais milionários e donos de quase tudo continuam impunes. Vem ao de cima, outra vez, a selectividade no combate a corrupção 

MPLA aprovou crime de lavagem de dinheiro

O presidente da Unita, Adalberto Costa Júnior, na sua página do facebook, ainda ontem, rebateu os pronunciamentos do titular do poder Executivo. Costa pediu o balanço da luta contra a corrupção. “Quais são os benefícios reais da recuperação de repatriamento de capitais. Também estamos a pedir, porque não conhecemos. Estamos a pedir a quantia dos números. Não existe. A única coisa que nos tem sido indicada é a questão do Fundo Soberano. Mas o Fundo Soberano e o repatriamento de capitais não são a mesma coisa. Portanto, até hoje não há balanços reais do repatriamento de capitais. Olhe que poderia haver balanços substantivos”, escreveu. De acordo com o político, é por isso “que temos sido voz permanente e fomos nós autores da primeira proposta de recuperação de capitais. Foi o Grupo Parlamentar da UNITA, por indicação da sua direcção, que levou para a Assembleia Nacional uma proposta de recuperação de capitais e património desviados dentro e fora do país. O MPLA votou contra, mesmo na generalidade, não tendo sequer ido a debate na especialidade. Tendo percebido que tinha sido um erro político, apareceu a correr e nem sequer soube copiar. Foi buscar uma pequenina parte. E fez a aprovação de uma lei que representou lavagem de dinheiro. Foi uma lavandaria aquilo que o MPLA aprovou. Um crime em qualquer parte do mundo”.

 Crime baseado em quê?

“Muito simples”, escreve o também deputado a Assembleia Nacional. “A lei que o MPLA aprovou dizia que o ladrão pode trazer o dinheiro e todo para o seu bolso. Nenhum benefício para o Estado. Institucionalizou-se e legalizou-se o roubo”, sentenciou.