Opinião


PR autoriza a construção de uma clínica no Palácio para tratamento de dentes avaliada em USD 5 milhões

2020-07-15 03:22:00

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Embora com alguma relutância, porque integrou o grupo de Ali Babá, como muitos, concedi o benefício da dúvida e acreditei que sim, que sob seu comando, Angola e os angolanos começariam a edificar uma nova era. Acreditei sim. Mas, aos poucos, fui caindo na real. E concluí que não passou de um sonho. Pura utopia!
O entusiasmo foi-se dissipando, muito por força de algumas decisões de cunho pessoal e pronunciamentos, digamos que, beirando à birra, falta de tato, digamos mesmo que, de falta daquela mestria que caracteriza os verdadeiros jogadores de xadrez, que a cada jogada, deixam o adversário e a assistência em suspense. Ao contrário, chegamos a um extremo em que já sabemos que a jogada que se seguirá, não será melhor que a borrada anterior.

E agora, depois de se confirmar que autorizou a inclusão no OGE revisto levado ao crivo dos deputados, de uma despesa equivalente a USD 5 milhões para instalação de uma clínica destinada ao tratamento de dentes numa das alas protocolares do Palácio, porque não contemplará o cidadão comum, o contribuinte, o meu encanto esfumou-se por completo.

E concluo que, com ele, também não vamos a lugar nenhum. O que fez de bom, se é que fez mesmo, foi o óbvio, diante de tanta desarrumação. O que falta saber agora, é se a sua herança não será pior do que aquela que recebeu.
 

Por isso, uma vez mais questionei aos meus botões, se isso de mandar construir uma clínica para tratar dentes na ala protocolar do Palácio, é mesmo decisão que um Presidente focado nos verdadeiros problemas que o País e este povo enfrentam, deve caucionar. Eles responderam que não, é claro, ainda que tenha grandes e graves problemas com os seus dentes. O seu estatuto de servidor público, não lhe confere essa autoridade. Mas mesmo sabendo que não tem, está a impor-nos a sua decisão.
 

É claro que, um Presidente sério, ainda por cima com dinheiro que não é seu, não manda construir clínicas, muito menos nas proximidades do Palácio, que também não é seu, se tiver como primado constitucional, que pode terminar o seu mandato dentro de dois anos e pouco mais. E quem o substituir, também pode não concordar com essa ideia e mandar desactivá-la ou determinar a sua utilização para melhor serventia, porque os funcionários da Presidência da República e dos seus órgãos auxiliares, não são nem devem ser vistos como gente especial, com tratamento médico diferenciado, com recursos públicos. Tal como a CRA determina, somos todos iguais.
 

É para isso que, aliás, servirá também o Hospital de Referência Pedro Maria Tonha "Pedalé" cuja construção, numa área de 32 mil metros do Morro Bento, consumirá USD 215 milhões. Não conseguiram arranjar nesse espaço, uma área para instalar a tal clínica com serviço diferenciado e refinado?
 

Como se vê, uma vez mais faltou tato, faltou inteligência. Faltou compromisso e patriotismo. Não pretendem misturar-se? Ou, nas calmas, o Presidente está a enviar-nos mensagens codificadas para que estejamos preparados porque, ao contrário do seu antecessor, irá impor-se no poder por mais de 38 anos? Será que teremos o nosso Robert Mugabe?
 

Só assim se pode compreender o seu interesse e aposta em modificar salas de reuniões, adaptando-as ao seu estilo. O Palácio é património da Nação e não compete ao Presidente da República, ainda que nas vestes de Mais Alto Mantadário, decidir sobre qualquer outra utilidade, fora do âmbito para o qual foi concebido, salvo se, autorizado por quem representa o povo, ou seja, a Assembleia Nacional.

A instalação de uma clínica para servir a elite do seu poder, tendo em conta que, com a pandemia do Covid-19, por muito tempo ainda, estarão impedidos de deslocar-se ao estrangeiro para tratar de questões de saúde, como foi prática porque os hospitais públicos e as clinicas privadas em Luanda não servem, não é da competência do Presidente da República. Esse edifício e outros anexos, deveriam constar como património histórico.


Á essa despesa, está claro, não foram adicionados os honorários para os estomatologistas e pessoal de apoio. Na certa, brasileiros ou cubanos. Provavelmente. Mas como no passado, a despesa será assegurada pelo chorudo orçamento da Casa de Segurança.
 

Decisões como as que vamos conhecendo, semana sim, semana não, são típicas de quem se acha dono e não servidor da Nação. De quem parece importar-se com a opinião pública, mas decide passando por cima dela. De quem se quer instalar e não de quem quer governar seguindo boas práticas. E é essa a mensagem, que o Presidente já não consegue dissimular.
Que desencanto! E por favor, não nos digam mais que não há dinheiro. Não é verdade. O senhor sabe onde pode 'sacar'.

Por:Ramiro Aleixo (In Facebook)